domingo, 22 de maio de 2011

Lack of your Sun.

Ele já não se sentia mais capaz de senti-la, ele não queria que ela o deixasse daquela maneira, seus pesadelos eram tão reais. Durante as suas longas caminhadas ele poderia a sentir como uma gelada brisa que vinha acalma-lo, aquele fluxo de pensamentos não o apaziguava, mas não o irritava. Apenas o tornava distante. Mesmo com todas aquelas luzes vindo em sua direção, ele as ignorava, alias, ele as usava, aquela cegueira momentânea o possibilitava não ter que enxergar a macabra recriação da cena em sua imaginação.
Já nem sabia mais de que adiantava olhar, dissecar a cena. Aquelas orelhas redondas, aquela barba malfeita, os dedos calejados, a pureza que escapava de seus olhos. Não aguentava mais, mesmo quando gritava e ninguém o escutava, ela queria fugir, ele tentou a ajudar, mas eles eram muitos, ele não teve chance. Ele nem pensou em ter uma chance. Lutou mais do que poderia pensar, em sua cabeça continuava a lutar, percorria as mesmas ruas atrás daqueles que tiraram a sua capacidade de flutuar, de sua vida.

Veja como são belos os dentes-de-leão, quais flutuam sem jamais se preocupar com que direção vão, com quem vêm em sua direção, em qual pedaço de asfalto ou grama vão pairar sobre. Existem apenas para semear não para se importar.

Ele corria agora, não mais andava, não era capaz, sua roupa encharcada de sangue, não era todo seu, apenas uma parte, apenas a parte que não queria acreditar, o sangue escorria pois não sabia o que havia feito, como reagiu quando acordou. Não queria mais acreditar naquilo tudo.
Ele lembrou como brigou com ela naquela noite passada, na razão deles terem ido passear, para tentar animar aquele mórbido clima que havia se criado. Era uma discussão tola, era uma razão absurda até então. Mas ele descobriu ali que não foi tola. Fez toda a diferença, tudo fez toda a diferença. Todo o caminho até ali, todo o caminho que o levou a observar e se vingar.
Agora se lembrou, finalmente, de como se vingou, de como saiu de si e observou seu corpo fazer o que fez. Como ele se perdeu, como seu corpo se tornou o monstro que havia escondido por tanto tempo. Como seu corpo salvou o dela, mas como ela não poderia o ver nunca mais. Ele lembrou-se porque corria, porque as luzes o cegavam, porque desejava ser acertado por um daqueles carros.
Foi a ausência momentânea do seu Sol, que libertou o monstro que sempre existiu em mim.

sábado, 14 de maio de 2011

Avenida S/Nº

Levados por esses camionhos sem paralelos, por essas ruas sem nome, essa vertigem coletiva, ando mas tudo o que vejo são corpos parados, eles estão indo na mesma direção que eu, ninguém ousa quebrar a maré, ninguém ainda ousou sair do cardume. Essa organizada baderna de sentimentos atirados por bocas-de-lobo, bueiros entupidos com a sujeira que vem de nossas mentes. Tudo aquele lixo que criamos acaba no mesmo lugar. Mesmo quando não é palpável, tem um fim, seu fim está na mesma linha deste fio que te segura aqui.
Todos esses fios que entrelaçam-se para formar a rede que estamos. É essa rede social, que é formada por pessoas tão reais quanto suas páginas, páginas e páginas de conteúdo infindável. Nas estrelas existem mentiras quais acreditamos, quais tornamos realidade.
A simbolica dor que me trouxe à esse lugar, me faz me perder novamente. Vejo tua pele, não acredito que esteja ali, acredito quando vejo alguém mais, talvez você, me falando que está. De que adianta a realidade se as palavras não são visíveis nela?
Palavras se tornam vento.
Avenidas ostentam com orgulho nomes, números e tijolos. Se não, o que mais as chamaria, se não apenas aqueles que a encontraram? Aí então cada avenida teria seu nome para cada pessoa, não existiria rede, não existiria o social. Se não fosse pelas ruas, não estariamos juntos, seriamos apenas ligações desconhecidas por entre nós mesmos.
Seriamos apenas nômades, não nos misturariamos, mas também não nos importariamos com o que se fala ou se diz de tal lugar, afinal cada um teria seu próprio nome para o lugar e todos estariamos a par disso, não do nome, mas de que existe um para cada. Que não importa quem seja você, não é seu. Nada lhê pertence, apenas existe, e você pode ter um nome na sua cabeça para aquilo, mas esse nome é seu e não dos outros.
Como se deve nomear cada coisa, se deve saber diferenciar seus nomes, saber dizer que a rua, não é uma avenida, nem uma praça. É apenas uma rua, com um nome seu, e não de outro qualquer.
Foi na avenida S/Nº é aquela que eu escolhi morar, e não venha me perguntar como nela chegar, não vou saber te explicar.